Piloto- Identidade visual curta-metragem "A casa sabe"

A identidade visual de A Casa Sabe parte da compreensão de que o território guarda memória. A casa e a chácara não são apenas cenários, mas corpos vivos que absorvem afetos, silêncios e violências ao longo do tempo. A estética do filme articula cor, luz e som como linguagem narrativa, ampliando os temas de memória, ancestralidade, raça e território.

A cor assume função discursiva. O azul é predominante e representa o medo, o silêncio e a memória reprimida. Ele domina as cenas noturnas, os interiores da casa e os momentos de isolamento psicológico de Clara, criando uma atmosfera de contenção emocional e vigilância constante. O vermelho surge de forma pontual e nunca decorativa, associado exclusivamente à violência física ou simbólica. Sua presença rompe o azul, revelando aquilo que foi historicamente silenciado. Tons terrosos e neutros sustentam a ligação com a terra, os animais e a ancestralidade, especialmente nas cenas que envolvem o avô.

A luz reforça o realismo sensorial do filme. Nas cenas diurnas, utiliza-se exclusivamente luz natural, valorizando o sol filtrado pela mata, as sombras projetadas pelos cavalos, pelas árvores e pela própria casa. A luz do dia não é idealizada; ela revela a materialidade do território e a passagem do tempo. À noite, a iluminação é baixa e pontual, com temperaturas frias e predominância do azul, intensificando a sensação de medo e desorientação.

O desenho de som é fundamental na construção da atmosfera. Durante o dia, predominam sons ambientais — cavalos, pássaros, vento, madeira — que criam sensação de pertencimento e ancestralidade viva. À noite, o som se torna rarefeito, ampliando o isolamento psicológico da protagonista.

A casa é filmada como personagem. Corredores, portas entreabertas e sombras profundas sugerem que o espaço observa e retém as memórias. Quando a violência emerge, o vermelho invade o quadro como se a própria casa sangrasse.

A presença do avô, homem negro que transmite saberes ancestrais a uma criança branca adotada, é central na construção visual do filme. Associado ao fogo, à terra e aos animais, ele representa cuidado, força e continuidade, tensionando estereótipos históricos.

Assim, a identidade visual de A Casa Sabe constrói uma experiência sensorial onde o azul acumula o medo, o vermelho revela a violência e a luz natural sustenta a ancestralidade, articulando estética e política como gesto cinematográfico.